
Artigo de Gina Oller, embriologista e psicóloga especializada em fertilidade e reprodução assistida, em colaboração com a Teletest.
Quando um casal consultava por fertilidade, o foco era colocado quase por completo nas hormonas, reserva ovárica, qualidade embrionária ou espermograma. No entanto, nos últimos anos, outro conceito tem ganho peso e é cada vez mais falado: a inflamação crónica de baixo grau. Não se trata de uma inflamação aguda, com dor ou sintomas claros. É um estado mais subtil, mantido ao longo do tempo, que pode estar relacionado com o sistema imunitário, o metabolismo, o equilíbrio hormonal… e também com a microbiota intestinal.
Embora nem sempre dê sinais evidentes, este tipo de inflamação pode interferir em processos reprodutivos sensíveis como a ovulação, a implantação embrionária ou a qualidade seminal. Neste artigo, explicamos o que sugere a evidência científica sobre esta relação e porque é que a microbiota intestinal pode ser mais uma peça a ter em conta quando se procura engravidar.
A ligação entre o intestino e a fertilidade
O intestino não funciona como um órgão isolado. Através da microbiota intestinal, relaciona-se de forma estreita com o sistema imunitário, a inflamação e a regulação hormonal. Quando a microbiota perde o seu equilíbrio — o que se conhece como disbiose intestinal — podem ativar-se mecanismos associados a um estado de inflamação persistente, embora de baixa intensidade. Em alguns casos, este desequilíbrio tem sido relacionado com uma maior permeabilidade intestinal, que permite a passagem de certos componentes bacterianos para o sangue e favorece a inflamação crónica.
Este tipo de inflamação nem sempre produz sintomas digestivos claros, mas tem sido descrita associada a distintos problemas de saúde, incluindo alguns contextos de infertilidade sem causa aparente.
Como é que a inflamação pode influenciar a fertilidade feminina?
Em mulheres, a inflamação crónica de baixo grau surge descrita em situações como a síndrome do ovário poliquístico, a endometriose ou o envelhecimento reprodutivo (Orisaka et al., 2023). Quando este estado inflamatório se mantém ao longo do tempo, pode alterar o ambiente ovárico e afetar processos delicados como a maturação ovocitária, a função hormonal ou a recetividade do endométrio, mesmo quando as análises hormonais básicas parecem normais. Esta abordagem ajuda a entender por que razão, em alguns casos, podem existir dificuldades reprodutivas sem uma causa clara nos estudos convencionais.
E na fertilidade masculina?
A fertilidade masculina não depende unicamente do espermograma. Uma revisão publicada na ‘Frontiers in Microbiology’ descreve uma possível relação entre a disbiose intestinal, a inflamação sistémica de baixo grau e a função reprodutiva masculina (Lv et al., 2024). Os autores explicam que, em contextos de alteração da barreira intestinal, a ativação do sistema imunitário poderá influenciar de forma indireta o funcionamento do testículo, com possíveis efeitos sobre a qualidade seminal e a produção hormonal. De novo, não se fala de uma causa direta, mas de um fator mais dentro de um contexto complexo (Lv et al., 2024, Wei et al., 2024).
Que implicações tem tudo isto?
Com a evidência disponível, o mais prudente é entender a microbiota intestinal e a inflamação crónica de baixo grau como parte de um contexto mais amplo, não como uma causa única de infertilidade (Moustakli et al., 2025; Ameho et al., 2025; Lv et al., 2024, Orisaka et al., 2023, Wei et al., 2024).
Na fertilidade, influenciam muitos fatores: alimentação, estilo de vida, stress, medicação, estado hormonal e metabólico. O interesse pela microbiota está em identificar possíveis elementos que nem sempre são valorizados nos estudos habituais e que poderão contribuir para um ambiente inflamatório persistente.
O que posso eu fazer?
Na prática, explorar este aspeto pode ter mais sentido quando:
- Existem sintomas digestivos persistentes
- Há sinais de inflamação mantida
- Se trata de infertilidade sem causa aparente
Sempre como parte de uma abordagem global e personalizada. A ciência atual não permite afirmar que corrigir uma disbiose intestinal vá resolver um problema de fertilidade, mas sugere que conhecer o estado do intestino pode fornecer informações úteis em alguns casos concretos.
Como é que a Teletest pode ajudar?
Uma das ferramentas disponíveis para avaliar este aspeto é o Teste de Disbiose Intestinal, que analisa a composição da microbiota intestinal e alguns marcadores relacionados com inflamação ou alteração da barreira intestinal.
Este teste não diagnostica infertilidade nem substitui as análises ginecológicas ou andrológicas habituais, mas pode fornecer informações complementares para entender melhor o contexto geral da saúde intestinal. Os seus resultados devem ser sempre interpretados por um profissional de saúde, juntamente com a história clínica e os restantes estudos.
Em determinados casos, contar com esta informação pode ajudar a tomar decisões mais informadas dentro de uma abordagem integral da fertilidade.
REFERÊNCIAS
- Moustakli E, et al. Gut Microbiome Dysbiosis and Its Impact on Reproductive Health: Mechanisms and Clinical Applications. Metabolites (MDPI). 2025.
- Ameho S, et al. The effect of chronic inflammation on female fertility. Reproduction. 2025 (PubMed).
- Patel N, et al. Distinct gut and vaginal microbiota profile in women with recurrent implantation failure and unexplained infertility. BMC Women’s Health. 2022.
- Lv S, et al. Gut microbiota is involved in male reproductive function: a review. Frontiers in Microbiology. 2024.
- Orisaka, M., Mizutani, T., Miyazaki, Y., Shirafuji, A., Tamamura, C., Fujita, M., … & Yoshida, Y. (2023). Chronic low-grade inflammation and ovarian dysfunction in women with polycystic ovarian syndrome, endometriosis, and aging. Frontiers in endocrinology, 14, 1324429.
- Wei, M., Liu, H., Wang, Y., Sun, M., & Shang, P. (2024). Mechanisms of male reproductive sterility triggered by Dysbiosis of intestinal microorganisms. Life, 14(6), 694.
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